Você fica
É você quem sempre fica
Os oficiais chegam e ficam um pouco,
tá certo.
Mas se vão, enquanto você fica.
Você é quem sempre fica
Mas dessa vez você ficou demais.
Ficou tanto, que eu me fui
E como é sempre você quem fica,
Você ficou.
Ficou sozinho.

“today my professor told me
every cell in our entire body
is destroyed and replaced
every seven years.

how comforting it is to know
one day i will have a body
you will have never touched.”
—via @impactings

Chegou em casa, chutou as sapatilhas para tirá-las e andou pelo breu da sala até alcançar o abajur, enquanto ele, mais atrás, brigava com os botões do interruptor. “Desiste. Não tem lâmpada no teto. Não gosto. Prefiro essa luz indireta do abajur”, disse ela enquanto abria a janela grande da sala. O apartamento era antigo, espaçoso, com janelas largas e carpete no chão. Aliás, era por conta do carpete que ele ainda estava na pequena entrada, agachado, desamarrando os tênis para poder entrar. Só se entrava naquele apartamento descalço. Enquanto ela caminhava para o corredor, pensava como era engraçada essa paciência do rapaz em desamarrar os sapatos com tanta calma. Ela estava mais acostumada a escorregar as sapatilhas para fora do pé, ou tirar o tênis empurrando o calcanhar de um pé com a ponta do outro.

Ela entra no quarto e começa a tirar a calça de forma atrapalhada, abaixa até o joelho e – quase como numa desistência de fazer esforço – tenta terminar sacudindo as próprias pernas. Se joga na cama e resmunga com o rosto no travesseiro. Ele, na cozinha, coloca as cervejas na geladeira, pega uma só e grita: “Quer dividir?”. Sem resposta. Ele abre mesmo assim. Ao chegar no quarto, ri e acende a luz. “E aí, vai desistir já?”. Sem resposta. Ele então senta na beirada da cama e fica brincando com o cabelo dela com a mão esquerda, enquanto bebe com a direita.

“Eu estava aqui pensando. Já passou pela sua cabeça como é louco a gente gostar de alguém? Encontrar alguém, que não é perfeito e que apesar dos momentos bons, também te traz momentos ruins (pausa) tipo você agora, que me fez ir até o mercado comprar cerveja e está desmaiada na cama me ignorando (pausa), mas que por algum motivo te faz parar de olhar para as outras pessoas, te faz parar de procurar. Não é louco?”

É. ô. Muito. – pensou ela, enquanto levantava e sentava após se sentir mal com a indireta. Pegando a cerveja da mão dele com um sorriso de quem pede desculpas sem pedir, ela bebe enquanto ganha tempo para pensar no que responder.

“Mas eu nunca parei de procurar.”

Entre um gole e outro, a frase sai pausadamente de forma proposital, enquanto, com o canto do olho, ela observa a expressão dele, um pouco desapontado. “Eu não parei de procurar e aposto que você também não, só passamos a ter mais critérios na escolha. E o critério, no caso, é a referência que temos um do outro. Posso continuar procurando, mas isso não quer dizer que vou encontrar alguém que eu goste tanto ao ponto de deixar você. Você é a minha referência atualmente.”

Ele pega a cerveja de volta meio puto.

– Ah, qual é?! Até parece que você tem muitos planos para nós.

– Não tenho?

– Não… Tem?

– Tenho.

Ele me mandou um jazz. Na verdade não mandou, postou um álbum no Twitter e a minha mente inquieta, que no momento procurava por algo para dar sentido aos barulhos dos mil teclados sendo socados na redação, ouviu aquilo como um presente. Quanto mais rápido o piano, mas rápidos eram os dedos, que tentavam em vão dançar como os do músico. Ora pois, eu que sempre quis ter dedos de tecladista, passo os dias a dançar com os meus e nada vejo deles a se alongar, continuam curtinhos, meio achatados – e sem jeito para servir de modelo a anel algum.

Toda história de amor tem sua trilha sonora. Eu poderia fazer uma playlist para cada pessoa que passou pela minha vida. Cada homem: uma, duas, três músicas. Hoje, depois de tantos anos, reli nossos emails, lembrei de nossas trocas diárias de músicas. Cada “bom dia”, “bom trabalho”, “lembrei de você” era uma música, um refrão destacado no corpo do texto. Resolvi abrir um por um. Anotar todas as músicas em um bloco de notas. Aí fui escrevendo esse texto ao mesmo tempo, porque a cada mensagem aberta eu era invadida por uma lembrança e uma vontade boba de escrever para você. Quero dizer, escrever aqui para você, porque sei que não vou te entregar nada. Prefiro te deixar quietinho onde está. Afinal, se você até agora não me procurou, é por algum motivo. Talvez o mesmo pelo qual eu não te procurei também: mexer com um amor que um dia foi intenso e verdadeiro é perigoso.

Você rendeu mais que uma playlist, mais que um CD. Certos dias parece que enviar uma música só não era suficiente para nós e então enviávamos o álbum inteiro. “Trilha sonora para a semana” eu digo em um email. “Para lembrar daquele show”, você dizia em outro. E discos inteiros eram enviados. Opa! Encontrei um aqui engraçado. Não lembrava que além de fazer recomendações um ao outro, nós também dizíamos as canções que nos embalaram enquanto escrevíamos nossos emails longos. Puxa. Eu tinha mesmo o costume de escrever ouvindo música naquela época, hein? Ou estou ficando velha, ou me faltam singles apropriados, pois não consigo me concentrar mais com batidinhas ao fundo. O que deu em mim nestes últimos anos, meu Deus?! “Escrevi tudo ouvindo isso”, você fala em um dos emails, seguido por um link.

Um dia você me mandou esse lance aqui (e naquela época eu nem imaginava que Osho ia virar um dos maiores best sellers no mundo):

Immature people falling in love destroy each other’s freedom, create a bondage, make a prison. Mature persons in love help each other to be free; they help each other to destroy all sorts of bondages. And when love flows with freedom there is beauty. When love flows with dependence there is ugliness. A mature person does not fall in love, he or she rises in love. Only immature people fall; they stumble and fall down in love. Somehow they were managing and standing. Now they cannot manage and they cannot stand. They were always ready to fall on the ground and to creep. They don’t have the backbone, the spine; they don’t have the integrity to stand alone. A mature person has the integrity to stand alone. And when a mature person gives love, he or she gives without any strings attached to it. When two mature persons are in love, one of the great paradoxes of life happens, one of the most beautiful phenomena: they are together and yet tremendously alone. They are together so much that they are almost one. Two mature persons in love help each other to become more free. There is no politics involved, no diplomacy, no effort to dominate. Only freedom and love. — Osho

Uma das coisas mais legais de escrever para alguém por aqui, sem nunca mostrá-la de verdade, é que a gente pode ser bem sincero. Ou melhor: bem escroto. Eu sempre ouvia o que você enviava, mas nem sempre eu guardava, nem sempre aquilo me encantava de primeira. Encontrei uma música que você enviou e, putz, me lembrou outra pessoa. Você me enviou primeiro, mas logo depois eu devo ter esquecido, porque um dia ouvi no carro de um carinha e depois ainda recebi ela de novo numa mixtape feita por um outro carinha. Eita musiquinha que me segue. Ou talvez fosse você me seguindo. Quem sabe minha memória me sabotou para eu não me lembrar de você. Ou talvez eu mesma tenha me sabotado.

Agora abri uma aqui que nem lembrava e que nem te respondi (escrota novamente que sou). No corpo do email você escreveu um trecho que decidi que vai ser o grand finale desse texto. Aguarde só, vamos ver se você vai lembrar qual música era. Uma dica: aconteceu lá nos meados de março de 2013. Ou seja, há exatos dois anos atrás. Acabei de levantar e dar um beijo no meu marido. Ele saiu para correr e agora está na cozinha fazendo uma vitamina para nós. É estranho que eu esteja escrevendo para você nessas circunstâncias? I guess it is. Ele não fala português, está aprendendo, mas com certa falta de interesse, eu sinto. Só o suficiente para sobreviver, já que eu trabalho e estudo o dia todo. Nunca leu meus textos e jamais lerá, muito menos este. É esquisito saber que estou com alguém que nunca leu nada que escrevi. Quero dizer, a escrita, o meu blog e o meu jeito de falar sobre as coisas sempre foram tão ligados à pessoa que sou. Sempre foram quase que características intrínsecas. Penso se isso é uma coisa boa ou ruim, já que ao mesmo tempo que o texto conquista, também decepciona. Consigo machucar muito alguém com o que às vezes eu escrevo. Você sabe disso melhor do que ninguém. Afinal, eu estou provavelmente fazendo isso agora.

Nesses anos todos trocando músicas, notei que poucas delas tinham clipes. A maioria eram links do Youtube para uma página estática com a capa do disco ou somente o nome do single. Foi interessante encontrar de vez em quando alguns vídeos. O do Rhye chamou a minha atenção. Parei de escrever para acompanhar a história do casal protagonista e lembrei de ter assistido com o mesmo interesse quando você enviou o link para mim. Por alguma razão náo encontrei nenhuma resposta minha sobre ele para você. Talvez a gente tenha conversado pessoalmente, ou por Skype. Acredito que naquela época eu já tinha me mudado.

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Falando em se mudar, acabei de ler uma frase em que você dizia que estava indo me visitar. Bem ali, na palavra visita, você colocou um hiperlink para aquela música do Silva. “Vou lhe fazer uma visita, mas não fique assim aflita, que eu não sou de reparar. Não precisa de banquete, não se preocupe com enfeite, não vá se empetacar.” Sempre admirei esse seu dom de nos lembrar de músicas a partir de uma palavra. Qualquer coisa falada era deixa para um refrão. Foi assim que o nosso tempo junto me rendeu o namoro mais musical que já tive. Fico pensando se esse é o seu jeito de colocar trilha sonora na sua vida. Se for, obrigada, adorei a trilha do nosso romance.

Opa! Esbarrei em uma conversa erótica. Esse negócio de sexo a distância deve ser uma daquelas coisas que todo mundo diz que jamais faria, até o dia em que percebe que é pointless se masturbar sozinho quando se tem alguém com quem falar todas aquelas besteiras sexuais que nos ajudam a chegar lá. Por coincidência, o email seguinte foi intitulado como eu intitularia aquele com a conversa erótica anexado: secret. Mas dentro dele só tinha você dizendo que estava viciado em uma música, mas o link do Youtube não abriu. Talvez ela devesse ser mesmo mantida em segredo.

“Vou te confessar um negócio. Dessas músicas que eu te passo, às vezes eu vou atrás de alguma coisa nova só pelo prazer de te mandar. Me dá uma vontade assim, do nada, de te mandar qualquer coisa. Por isso que nem todas são grande coisa”. Serei escrota novamente. Pelo simples motivo de: sou assim. Teve uma vez, encontrei aqui, que você me contou sobre um cara que você conheceu e se amarrou no EP. Acho que ele fazia parte de uma banda que nós dois gostávamos e ainda lembrava outro que também ouvíamos. Até hoje, eu nunca tinha ouvido a música enviada em anexo. Nunca nem respondi o seu email. Você teve o EP inteiro para escolher uma música e foi escolher aquela que justamente carrega o nome do cara com quem te trai. Tentei, mas não consegui lembrar da minha exata reação ao ver o título da faixa. Meu estômago com certeza ficou mais embrulhado do que ficou agora. A vida é mesmo um terrível e ridículo cruzar de coincidências.

“Acho que essa tal de Augusta um dia vai nos consumir uns bons trocados”, dizia você ao enviar aquela do Tom Zé e se referindo aos nossos planos de se mudar para São Paulo. A capital, mesmo cheia de seus problemas, cheia de poluição, cheia de caos e seca, sempre nos intrigou muito. Ir para lá seria ver e viver de perto o cenário cultural que a gente tanto gostava, tanto assistia acontecer de longe. Os shows que você queria cobrir, as revistas feministas para as quais eu queria escrever, os bares que, como você disse, arrecadariam parte dos nossos salários baixos de focas. Se alguma vez ser jornalista pobre fez sentido e possuiu certo glamour na minha cabeça, isso aconteceu enquanto estive seu lado.

“Eu sei que de vez em quando você também finge que algumas músicas foram escritas pra nós dois”. Olha só, acabei de ver aqui. Foram mais de 30.770 mensagens no chat do Facebook e mais de 600 emails trocados, fora as nossas conversas diárias pelo Gtalk. É… agora eu posso afirmar: fingi, sim, que todas elas – as conversas, as músicas, as palavras, as referências, as canções – foram escritas para nós.

“I miss your face like hell.”

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