Cinco pessoas pediram para eu crescer na última semana. Uma delas foi a minha mãe, que finalmente visitou o espaço que divide o universo do canto em que eu habito e percebeu que aqui dentro já não existe mais nada que diferencie uma cama de uma mesa, ou de uma poltrona. Já ando sentando na mesa, estudando na cama, dormindo na poltrona e apoiando roupas em tudo. Enfim, ela pediu para eu crescer e botar ordem na bagunça.

A outra pessoa foi a minha nova ginecologista. A doutora arregalou os olhos quando eu disse que minha última consulta foi em 2009 porque desde então três coisas me impediram: plano de saúde, agenda e preguiça. Apavorada com o meu descaso, ela me proporcionou 40 minutos de perguntas constrangedoras, três receitas médicas e um batalhão de exames… o qual obviamente eu jamais cumprirei com êxito. Enfim, ela pediu para eu crescer e cuidar da minha saúde.

Meu ex também não deu ponto sem nó e assinou um email pedindo para eu sumir de vez. Chamou-me de louca, de irresponsável, de apaixonada, de neurótica, de criança por tabela. Não achei exageiro porque ele sempre soube dizer tudo isso com uma sutileza assustadora que sempre me convenceu de que, mesmo com tudo isso, eu era a melhor do mundo. Dessa vez, porém, ele foi mais curto e grosso. Entendi o recado e absorvi a informação. Enfim, ele pediu para eu crescer e sumir de vez.

O banco parece ser o único fiel ao insulto. Nunca escondeu que, para ele, meu saldo sempre foi coisa de criança. Com 21 anos ainda possuo a conta Teen, feita para pré-adolescentes de 13 a 17 anos, e sempre me mantive quieta, posto que enquanto as taxas estivessem baixas eu seria eternamente uma jovem debutante. Até hoje, quando recebi uma carta bonita do banco anunciando (como se eu mesma não soubesse) que minha maioridade já chegou há 4 anos, o que implicava na mudança da conta. Enfim, ele pediu para eu crescer e cavar um buraco maior para me afundar financeiramente.

O atual, coitado, reclamou pela milésima vez do meu elefante de pelúcia na cama. Mandei a merda (porque para isso eu sou bastante grandinha), mas logo depois pedi desculpas e expliquei o valor sentimental que o elefante tem. Sem compreender, ele decidiu aceitar a fim de evitar maiores estranhamentos, mas frisou o recado. Enfim, ele pediu para eu crescer e lembrar da renite alérgica dele.

Ando ensaiando pensamentos sobre mim. Rever conceitos, escolher palavras, prever consequências. Vivo fazendo planos e finalmente sinto que devo colocar todos em prática. Às vezes fecho os olhos e posso jurar que estou em outro lugar qualquer do mundo. Em seguida, sinto uma saudade absurda de você, desse quarto, das minhas amigas, ao mesmo tempo em que me sinto finalmente livre de tomar qualquer decisão. Uma saudade boa, saudável, que ao mesmo tempo que dói, faz bem. Desejo continuar sentindo ela.

É fácil imaginar. É só pensar que, como estou longe, não tenho o poder de impedir que nada aconteça. Estou impotente ao curso natural das coisas e isso, por mais engraçado que pareça, não me é nenhum pouco assustador, alivia. Fico então gastando horas com isso, imaginando um momento em que não vou ser influência nas escolhas de ninguém.

Ah, a deliciosa sensação de desprender-se de algo, mesmo que esse algo seja uma coisa inexata, sem forma física ou significado. A rotina cansa, a cidade também, minha cama, sua cama, nossas vidas. Todas essas zonas de conforto que nos transformam em pessoas acomodadas.

Abro os olhos, vejo onde estou, suspiro entendendo que mais uma vez sonhei alto e acordada, como costumo fazer. Nunca estou satisfeita, sempre quero algo diferente. Um novo trabalho, uma nova casa, uma nova profissão, um novo romance, uma nova chance de ser um novo alguém.

Quando finalmente terei coragem de fazer as malas?!

Arrumou a franja que caía nos olhos com um brusco mexer do pescoço. Estava esperando os carros passarem para atravessar e entrar na estação de metrô. Enquanto isso observava alguns garotos do outro lado da rua, com uniformes do colégio e mochilas nas costas. Faziam embaixadinhas com uma latinha, uma diversão barata na volta para casa. Era fim de tarde e ela ainda tinha aulas de um curso pela frente, mas percebeu que seu cérebro pouco estava funcionando aquela hora e que seu corpo já ensaiava relaxar em algum colchão. Ainda esperando os carros, cogitou em qual iria dormir.

Notou que estava sendo insensível, começou a divagar sozinha sobre suas relações e deixou passar três chances de atravessar a rua. Não perceberia se um amigo do trabalho não saísse no mesmo horário e parasse ao seu lado, como fez, desconcentrando-a.

- Ta indo pra casa?

- Não, para um curso.

Quem dera. Sempre imagina as pessoas do trabalho indo para casa, encontrando suas famílias, ligando a televisão ou lendo um livro. Como era bom ler um livro. Atravessaram a rua, entraram na estação, cada um seguiu para uma direção e ela, sozinha novamente, observou conversas alheias, balançou mais vezes a cabeça para tirar a franja dos olhos e não percebeu que continuava pensando em qual colchão iria dormir. Sentou-se e logo em seguida foi empurrada contra a janela por uma gorda que sentou ao lado. Direcionou-se para a janela e acompanhou a rápida passagem pelas estações.

Não era possível enxergar muito bem quando o metrô passava pelos túneis. Certas pessoas sentiam enjoo, mas ela não. Ela gostava e se contentava em imaginar que eram aceleradores de tempo. Dessa forma, passou a imaginar que a rápida passagem entre uma estação e outra era uma rápida passagem por alguns específicos momentos de sua vida. Fatos, pessoas, lugares, uma retrospectiva que ela se esforçava em pensar e relembrar à medida que o metrô acelerava.

Obviamente, a tarefa não deixava de ser um passatempo para distrair-se da demora que era chegar ao curso. O caminho era longo e olhar as pessoas aparentando cansaço não a estimulava. No entanto, pouco gostou também das coisas que lembrou e decidiu pegar um livro. Acabou dormindo, ainda espremida entre a janela e a gorda, pouco confortável.

Acordou com sua mãe ligando e anunciando que iria ao cinema com seu pai e voltaria tarde para casa. Desligou, pensou, esqueceu o curso, esqueceu a canseira e ligou para um dos colchões. Dois, três toques e desligou. Ele retornou, ele sempre retornava.

- Quer ir lá pra casa?

- Quero. Te busco em qual estação?

- Sé.

Pediu licença para a gorda e saiu. Mais uma noite de curso abandonada, penaria um pouco para recuperar nas provas, mas isso tudo pouco importava naquele momento. Saiu da estação e colocou a jaqueta de couro azul que carregava na bolsa. Fazia frio e garoava, tempo que parecia ideal para se aconchegar nos braços de outra pessoa.

Esperou pelo Sandero branco ainda ao lado da entrada da estação, encostada na mureta. Pensou se era esse o colchão certo de chamar. Pegou uma seda na bolsa caramelo, procurou pelo saco de fumo e começou a enrolar um cigarro com a mesma sutileza que enrola todos os seus colchões. Com eles, ela conseguia ser delicada e agradável ao ponto de convencê-los de qualquer coisa. Enrolava o fumo e enrolava romances. Essa era realmente uma ótima comparação.

Todos sempre gostaram de como ela fazia cigarros de palha bem. Deixava fininho, com o fumo bem apertadinho, mesmo que precisasse parar para tirar a franja dos olhos. Tudo isso dependia de alguns minutos em paz. Ela não costumava conversar enquanto fazia isso, mas pensava e pensava muito. Pensava longe, era terapia. Enrolava o fumo, enrolava os colchões, os romances, os pensamentos, tudo junto ali naquela seda. Passava sua doce saliva e fumava.

Enchia os pulmões disso tudo, tragava o mundo e soltava quando achava que deveria soltar. Ficava vazia e só sossegava quando puxava para dentro tudo novamente. Da mesma forma que fumava, vivia.

O Sandero chegou no momento em que o cigarro acabou. Ela respirou fundo, jogou a piteira no chão, entrou no carro e deu um beijo em seu colchão escolhido.

- Que bom que está aqui. Pensei em você o dia inteiro.

 Mais uma foto do meu querido e talentoso amigo Eduardo Macarios

Nunca fui muito fã de chocolate, exceto nas semanas de tensão e angústia. Eu era realmente  invicta ao mais cremoso e mais saboroso dos chocolates. Meu pai me dava, minha mãe me dava, minha irmã trazia da Europa e de todos eu escolhia um quadradinho para experimentar e colocar “um doce na boca” depois do jantar. Sempre foi assim, até o dia que eu conheci um cara e uma caixa.

O menino era irmão mais velho de um amigo meu, cheio de querer saber muito de mim. Soube o suficiente para entender que eu não era flor que se cheirasse e que não era mulher que se investisse flores e bombons. Nunca fui também do tipo mais romântica, o que dificultava qualquer demonstração de carinho exacerbado, mas para mim isso nunca foi problema. Achava que era solução. Que tipo de mulher ficava feliz só porque você comprou aquela cerveja aguadinha que ela adora, ao invés da amarga de garrafa verde que só você aguenta? Essa era eu e sempre achei que ser assim ia facilitar algo.

Mas o cara não era desses, que traz flor todo domingo e te escreve mil cartas de amor sem nem ainda existir amor suficiente para preenchê-las. Ele não me dava nada e dividia a conta do cinema, me deixava sem o peso de ter que amar, gostar, idolatrar. Me levava em lugares bons, programas tranquilos e sabia sentar do outro lado da mesa sem dar piscadinhas apaixonadas. Um cara bacana… Que um dia pensou que me agradaria com um chocolate e comprou.

Foi no estacionamento do cinema, em algum dia que provavelmente eu não parava de falar freneticamente, que ele me entregou a caixa. Era bege, com uma fita marrom e pesada de tanto chocolate. Eu não lembro qual cara fiz e talvez prefira não lembrar. Sei que agradeci efusivamente e guardei a caixa para comer depois. Guardei até o dia que ele me deixou.

A maneira com que tudo acabou é outra coisa que eu não me lembro e também não me esforço em lembrar. Sei que finalmente peguei a caixa em cima da mesa e com os olhos cheios de lágrimas comi o primeiro chocolate. Sem parar, comi outro e outro e outro e descobri um sabor diferente daquele que sentia em todos os chocolates que comi durante minha vida. Era um gosto que preenchia o que faltava em mim. Era amor, era todo o amor dele ali dentro, um tempero que me faltava e faltava muito.

Não comprei mais o chocolate com medo de não ter mais o mesmo gosto. Apesar de triste, fiz daquele momento a nossa despedida e fui feliz por ter algo dele ainda comigo. Guardei a caixinha, que às vezes posso jurar ainda ter o cheiro da nossa história. De todos os chocolates do mundo, o melhor é aquele que um dia foi recheado com amor dele… Sem nem ao menos ele saber disso.

Foram três rosas lindas, deixadas em uma garrafa de plástico, sem rótulo, na porta da minha casa. Imagino exatamente a cena dele chegando ali, estacionando o carro, deixando na porta e saindo, puxando as calças que agora estão um pouco largas já que nós dois emagrecemos durante todo esse período crítico que foi o fim do nosso namoro. Imagino também a vizinha passando por ali minutos depois e notando o delicado gesto de quem pede por mais uma chance, mesmo sem saber que era isso que ele estava pedindo.

Eu tive semanas de raiva profunda de todos os homens da face da Terra, enquanto tentava me convencer de que ele não foi nada na minha vida e me perguntando o que foi que passou na minha cabeça quando resolvi me aventurar e deixei entrar na minha casa um homem que conheci tão impulsivamente. Odiei ele e os outros. Pensei em viajar, em rever meu primo que mora na Canadá, em largar tudo e viver longe dos livros que ele me deu e estão bem em cima da minha escrivaninha, me fazendo lembrar tudo o que aconteceu. Eu fiz isso e, por algum motivo que até agora desconheço, também odiei todos os amigos dele. Não sei, foi um ato involuntário, passou rápido, juro!

Tivemos outros encontros, tentamos superar, fingir que havia outro jeito de rir de tudo que aconteceu, mas não deu. Não consigo lidar com o jeito dele e ele não consegue lidar com o meu. Não temos nada em comum e não existe nenhum motivo para insistir, além da nossa teimosia. Todo mundo nos avisou que não ia dar certo, mas a gente não ia deixar barato, não é? Pois é, por isso tudo acabou assim. Ao invés de esperar, a gente deu com a cara na parede. Ridículos. Fomos completamente ridículos, se me permite dizer.

Às vezes a gente surge de surpresa, voltamos a nos questionar sobre nossas falhas e eu tento não me deixar levar. É preciso que fique claro que existe algo errado na maneira com que tentamos fazer as coisas darem certo para nós como um casal. Eu não me arrisco em repetir o mesmo erro. Então tento prolongar o fim, o tal do ponto final, porque não quero acreditar que não fui capaz de sustentar o amor que ele me deu de presente. Não quero acreditar que foi um de nós dois que pôs um fim, porque sempre gostamos de mais para querer que isso acontecesse. Mas ele não entende quando eu tento mostrar isso, que fingir que o outro não existe e culpar algo ou alguém não é a melhor maneira de superar um término.

Dessa vez eu cuidei bem das rosas, mas elas secaram porque o sol bate forte no meu quarto de tarde, ele sabe disso. Esses dias, eu estava sentada na cama lendo um livro e notei que elas tinham morrido, eu sabia que uma hora isso ia acontecer. Fiz uma relação meio idiota e clichê com a nossa história e resolvi tirar logo elas da mesa. Fazer isso doeu aqui dentro e eu chorei bastante. Não é fácil admitir que tudo na vida é previsível, tudo tem um fim e quando o fim chega, logo vem parar em um texto meu. Agora eu sinto que, assim como as flores, você também foi embora de mim e virou prosa.

Eu tenho que te contar uma coisa. Eu te transformei em sexo casual. Calma, eu sei que nunca te contei isso, mas eu precisei que fosse assim. Não saberia lidar se não fosse desse jeito, mas acontece que esse sexo casual que inventei está cada vez menos casual. O que significa que eu não consegui fugir. Agora a procura já é mais frequente e eu respiro fundo que é pra não me deixar levar por mais um esboço de romance. Ei, cara, ajuda! Percebe que eu estou me esforçando para tornar você em só mais um da minha lista pelo simples fato de não saber brincar de grande amor. Aquele dia que a gente saiu e eu fugi de qualquer coisa que pudesse nos levar para a cama para somente dormir juntos, abraçados, lembra? Fiz isso porque eu me conheço, cara, eu sei que eu ia me apaixonar nessa noite. Eu sei que eu ia gostar de brincar de ser só sua e eu tinha que fazer algo para reforçar que somos só isso, só sexo casual, só história mal contada. Por isso eu tive que ir para casa, eu tinha que fugir de você, dos teus abraços, porque por você eu não posso me enganar.

Talvez por isso eu também fuja dos sussurros no ouvido e engane a mim mesma que tudo isso está aumentando dentro da gente. É auto sabotagem, minha mais nova tática de vida, por mais que não dê mais para esconder. Já está na cara que a gente deseja, mesmo que baixinho e à surdina, uma casa, um canto, um quarto, porque os motéis já estão pesando na conta e hoje é um daqueles raros dias em que a gente só queria dormir junto sem ter hora para acordar. Mas, cara, entenda, eu não posso gostar de você. Eu não posso deixar que tudo isso pare de ser só sexo, pelo simples motivo de que eu não sei gostar de ninguém de maneira saudável. Sabe por que, cara? Porque eu sou como todas as outras. Eu vou espernear, eu vou esbravejar, eu vou sentir ciúmes e então você vai perceber que eu sou como elas.

O que eu faço com toda essa imagem que você criou de mim? Eu não posso deixar você conhecer meus defeitos, minhas crises, minhas alergias que deixam a boca inchada. Nem você e nem ninguém. Nem você e nem os outros caras que eu também transformo em casuais. Assim eu controlo bem quando você vai me ver, o que vamos fazer, assim eu sempre estarei linda e de bom humor, nunca com sono e espinhas na testa. Eu serei sempre diferente dessas outras. Assim eu não preciso me preocupar com elas, essas mulheres mais velhas que sabem muito mais da vida do que eu. Escondo bem minhas fraquezas, finjo ser mais do que elas, engano a mim mesma e ponho você na frente da melhor mulher do mundo. Como posso deixar todo esse plano desmoronar só porque quero dormir com você no meio da novela? Só porque quero te ver pela segunda vez na semana ao invés de sair com as minhas amigas? Não, eu vou ficar, eu vou ficar e deixar você ai se perguntando o que fez de errado, mesmo que não tenha feito nada.

Alívio, desgaste e anos depois a guerra de egos finalmente acabou

É irritantemente difícil admitir que seu inimigo é bom em algo que você não é, ou é suficientemente bom para ser comparado a você. Depois de passar por uma extensa experiência acerca do ego humano enquanto estive na faculdade de comunicação (terreno mais fértil não há) descobri que existe uma coisa pior que viver neste conflito com seu inimigo: Viver neste conflito com seu amigo.

O desafio do século é buscar admitir que seu amigo é seu ídolo na mesma arte da qual você se esforça em ser o melhor. Até mesmo porque admitir que ele é seu ídolo o colocaria automaticamente em um patamar acima do seu. Há quem diga que sabe lidar com isso muito bem. Eu, entretanto, permaneço duvidando mundos e fundos.

Eis que me peguei pagando todos os pecados em uma simples vontade súbita que deu de ler o blog de uma antiga amiga. Sabe Deus se essa vontade veio por nunca mais tê-la visto, fato que a torna uma quase ex-amiga, ou por ter superado esse conflito interno de negação. Negava que ela era melhor que eu e negaria até hoje que um dia seus textos me inspiraram, mas algo mudou.

Cliquei, abri, li tudo como eu estava interessada e descobri em mim um novo fôlego nessa brincadeira que é tentar escrever como profissão. Viver da sua própria cabeça é deveras cansativo e parece esgotar as ideias, uma fonte que até então eu achava inesgotável.

Esgotou, mas logo deu alguns suspiros para mostrar que ainda resistia bravamente dentro de mim e bastava ler um bom texto que essa inspiração enfim seria novamente ativada e exibiria uma louca vontade de rabiscar o caderno.

Reli o blog quase inteiro, virei do avesso e sacudi para ver se nada mais de minha amiga restava ali. Tive a sensação de estar usando o cérebro dela por alguns segundos e escrevi poucas palavras que foram um bocado semelhantes às publicadas por ela.

Adicionei o endereço aos favoritos e me livrei da sombra do ego, assumi para mim mesma a admiração. Admiti que fosse sua fã e senti ali um breve alívio, pois agora eu poderia dizer que conhecia minha ídola e era sua amiga, ao invés de ser somente sua amiga e não idolatrá-la.

Faz tempo que eu tinha vontade de escrever sobre a cidade dos meus avós e acho que algumas vezes eu bem tentei, mas não consegui desenvolver algo que mexesse realmente com aquela sensação de nostalgia que sempre achei obrigatório em temas como esse. Não sei o que essa minha última visita teve de diferente, já que tudo costuma ser sempre igual por lá, mas resolvi escrever, inspirada na viagem de fim de ano do meu querido colega de trabalho Luiz Gustavo.

A cidade dos meus avós, Miguel Pereira, fica no interior do Rio de Janeiro e é pouco conhecida pelos cariocas. Região serrana que nos idos tempos em que a tuberculose era chamada de “peste cinzenta” abrigava diversos doentes em chácaras e casarões chiques para “respirar ar puro”. Bem, a medicina evoluiu, os índices de tuberculose diminuiram e Miguel Pereira cresceu sem qualquer planejamento. Virou uma cidade pequena, caótica, sem sinaleiros e com muitos motoqueiros de havaianas. Além, é claro, de uma grande parte da família Ricciardi. Motivo pelo qual meu pai chama a cidade de “hospício a céu aberto”. Carinhoso, não?!

Ali, passei todas as férias da minha infância, assim como minha mãe, ao lado dos meus irmãos e da minha prima, desbravando terrenos abandonados, ruas de barro e o tal “centro da cidade” com uma independência nunca imaginada na capital do Rio, onde morávamos. Vida simples sem computadores, video games e televisões. Respirando o tal “ar puro” da cidade. Com o tempo mudamos para Curitiba, crescemos, as visitas se tornaram mais raras e nossas férias já eram mais compactas. O que significa também que as 12h de estrada já necessitavam de algo a mais além de saudade. Dessa vez, resolvemos visitar a cidade no carnaval, afim de fugir das praias lotadas e dos desfiles na televisão.

A cidade de Miguel Pereira é um local caótico, como já disse, mas guarda tudo aquilo que resume minha infância, meus costumes e minhas maiores lembranças de família. Andar no seu centro sem sinaleiros, com fachadas dos anos 70 e 80 e subir a ladeira do bairro da Alegria faz meu coração viajar para um tempo que não volta mais. Foi na casa da minha bisavó, a casa da Alegria, que eu pisei na grama descalça, ralei o joelho muitas vezes, comi fruta direto do pé e pintei o rosto com urucum para achar que era índio. Na casa da Alegria, a família toda se reunia e as crianças almoçavam juntas no sofá, já que a mesa ficava para os adultos.

Visitar ela agora não é mais a mesma coisa, mas sempre aperta o peito quando eu chego em frente ao seu portãozinho azul e leio “Nosso Lar” na porta de entrada. Eu posso morar na capital do Rio, em Curitiba ou em Florianópolis, que sempre me sentirei em casa quando chegar ali. Não poderia existir outro nome para aquele lugar.

Mas não é por isso que a viagem ficou menos divertida. Com a monotonia que vem com a idade, meu avô começou a se aventurar na cozinha e, desde então, nosso programa familiar é experimentar o seu prato clássico: O Macarrão Puta Merda. Calma, deixa eu explicar! Minha família é uma mistura de português com italiano, nascida no Rio de Janeiro. Agora, calcule o nível de palavrões ditos em um almoço de domingo. Calculou? Agora eu vou explicar o motivo do nome. De acordo com meu avô, sua especialidade gastronômica leva esse nome porque ou você come e diz “Puta Merda que macarrão bom!”, ou diz “Puta Merda que macarrão ruim”. Simples, não?! Um clássico da família.

Mas a família Ricciardi não é só palavrão, é história também. O jantar carnavalesco trouxe junto uma viagem ao tempo do Império enquanto minha mãe e minha tia separavam documentos dos meus bisavós, tataravós, etc. Cartas assinadas por Dom Pedro, à pena e em gigantes papeis carimbados. Documentos do tempo que o país se chamava Estados Unidos do Brasil e a ortografia continha acentos nas mais variadas palavras. Um papo que vai pra lá de um post…

Carta assinada por Dom Pedro

No fim, não desbravei nenhum terreno abandonado, não pintei a cara com urucum e nem me encontrei com a minha prima, minha melhor companhia na infância, mas… “Puta Merda”, que viagem boa!

Eu acordei com algum movimento brusco que eu mesma fiz com a perna, anunciando que o sono pesado se aproximava e eu tentava resistir bravamente. Acho que ele entendeu o recado, porque logo aumentou consideravelmente o volume da música que tocava no carro e eu tive uma súbida vontade de levantar a cabeça do colo dele e lançar aquele olhar de quem pede para ser deixada em casa, no quarto, na cama, coberta de edredom e beijos quentes.

Ele entendeu e assim fez. No caminho, digeri a frustração que me fizera discutir ao ponto de me cansar tanto que dormi ali mesmo, no colo e no carro dele. Mastiguei bem, que era para não cuspir algumas verdades nele, que nunca teve culpa de nada e só lutou contra seus próprios anseios para me compreender. Mal sabia que eu era incompreensível, uma espécie de mulher que apenas se deixa ir, sem implorar para que fique e sem saber por que isso deve ser feito.

Frustei com a pílula que acabou bem agora que nos vemos novamente, com a calcinha nova que comprei, a depilação diferente e o bronzeado mais ou menos dourado que não puderam ser expostos à você, mas que foram inicialmente dedicados aos seus olhos e suas mãos. Frustei pelos meus seios que sempre foram iguais em decotes invariáveis terem sido os únicos escolhidos para suportarem seu rosto e recolherem suas lágrimas em uma posição torta na tentativa de se tornar abraço. Você podia ter escolhido minha barriga, ao menos nesse quesito nós nos permitiríamos nos aventurar mais.

Foto: bernardocople

Antes de se perder na multidão colorida, antes de sair e antes de me beijar a testa, ele tentou amenizar a dor com o trecho de uma música que eu sempre gostei, mas nunca havia percebido o tom de tristeza que ela trazia. “Todo carnaval tem seu fim” – e então partiu levando um punhado de confetes do meu coração. Bastou isso para eu me sentir em preto e branco e ter meus pensamentos enrolados feito serpentina, enquanto palhaços, super-herois, policiais e dançarinas de cabaré circulavam ao meu redor.

Ele me deixou em pleno mês de fevereiro, no carnaval em que me vesti de bailarina e sorri com batom rosa um sorriso forçado de quem não queria perder a alegria que um carnaval traz, mas quase podia sentir o coração rasgando feito a bandeira da madrinha da escola de samba.

Era uma multidão de pessoas pulando marchinhas, enquanto eu continuava parada. Cerveja respingava em mim, cheiro de lança-perfume no ar, homens vestidos de mulher, meninas vestidas de odaliscas. Eu continuava parada, sendo somente mais uma bailarina de saia armada.

Demorei a reparar que você não era minha avenida. Você era bloco. Bloco de rua, como outros milhares que existem. A avenida era eu. Só desfilava o Pierrot que eu quisesse, só tocava a música que eu quisesse ouvir. Não era a sua bateria que me colocava para dançar, era o meu peito e  era com a batida dele que eu iria pular também. Não, amor, não é todo carnaval que tem um fim. A vida toda é um carnaval.

Um desfile de pessoas rindo da solidão, se abraçando e cantando como se amanhã fosse só mais um dia, sem compromissos, sem trabalho, sem visitas em cima da hora e louças para lavar: Como todo dia deveria ser.

Um desfile de pessoas escondidas em fantasias, das mais diferentes figuras, escondendo suas vergonhas, travestindo identidades coloridas, para serem quem quisessem ser: Como já somos.

Sempre sobra confete na calçada, cerveja na saia da colombina, anjo bêbado andando com a asa quebrada e palhaço sem nariz vermelho. Sempre sobra uma máscara no chão, para você recolher e levar para casa. É com ela que a gente põe nosso bloco na rua de novo.

Se o amor é carnaval, eu sou avenida.

@sofiaricci_

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