Todos nós somos uma música para alguém. Meu pai sempre entra em minhas mais profundas memórias ao som de uma famosa do Cat Stevens. Minha mãe se encarrega de aparecer em versos de Paulinho da Viola. Meus amores, todos eles, ressurgem entre um passar e outro de faixas no iPod. Às vezes gosto de pensar que sou The Shins para alguém. Nunca saberei se sou. Uma pena.

No dia que conheci Mara, descobri outra relação com a música. Percebi que somos – ou que podemos ser – solos. Toda vez que entra na sala, Mara surge aos meus ouvidos como um solo de jazz agradável e agressivo. Da mesma maneira como surge aos olhos de quem a esbarra na rua.

Mara é um susto na vida de qualquer pessoa. Inclusive na minha – e não sei se um dia irei me acostumar com isso. Toda vez que a vejo no horizonte, mesmo que vindo ao meu encontro, e mesmo que este encontro tenha sido marcado naquele local, naquele horário, mesmo que eu a tenha visto horas antes, tenha memorizado suas roupas, seus cabelos, notado seus lábios rachados, Mara surge como um susto. E então o solo de jazz toca, quebrando o silêncio que a minha vida tem sem ela.

Sou triste com o solo de Mara. Sou pior sem ele.

Sou triste porque não sei se, para ela, sou música ou sou solo. Sou violino desafinado, ou uma orquestra inteira. Perco a mulher que amo para o meu medo de seu jazz ser apreciado por mais alguém. Por pensar que sua entrada triunfal na estação da Sé, atrasada, correndo, esbarrando em todos, seja tal susto e tal solo para mais alguém. Um homem que, como eu, passará a entender que não há nada mais gracioso e atraente do que uma mulher que, na vida, é solo de jazz.

Ouvia o barulho do próprio salto no cimento da calçada. Barulho ritmado, constante. Que interrompe abruptamente ao atingir a esquina. Os carros passam de um lado para o outro. Um ônibus faz a curva e o vento quente a faz fechar os olhos. É atropelada pelo bafo urbano. A saia, leve, move agitada e mal consegue parar, o sinal abre. O salto. O cimento. A calçada. Tudo de novo.

Deitada de bruços, estiquei o corpo para fora da cama sem muito esforço. Na tentativa de encontrar algo a servir de cinzeiro – um copo, uma xícara, uma latinha de cerveja vazia -, encontrei um prato sujo de farelo de pão. Esmaguei ali a ponta do baseado e me joguei de volta para a cama tomando impulso com a mesma mão – feito uma enferma sem forças para sustentar o próprio corpo. Fechei os olhos e senti o peso quente da mão dele percorrer minhas costas em direção à lombar. Seus dedos começaram a pesar mais, uma pressão leve sobre minha pele magra, ondulada em ossos. Uma cordilheira sendo explorada. Quando mais eles desciam, mais pesavam. Mais pressionavam – famintos. E, então, com o pousar da palma da mão na lombar, senti seu dedo médio escorrer entre as minhas pernas.

O arrepio. O gozo. O espasmo.

Comecei a fazer terapia. É um dinheiro que, no começo, encarei como uma grana perdida. Sentia muito medo de falar de mim mesma (e ser sincera) com um estranho. Eu sou da ideia de que, conforme a idade passa, nos tornamos pró em acumular problemas. Vamos postergando soluções e empilhando um problema no outro, até a gente não saber qual deles resolver primeiro. Aí tem uma hora que nós não aguentamos mais aquela bagunça e vem a ideia brilhante de pedir para uma outra pessoa nos ajudar nessa tarefa ingrata de desfazer a pilha de problemas um por um. “Segura esse daqui pra mim um pouquinho, por favor?“, a gente pergunta, enquanto tira um dos problemas da pilha. E essa pessoa vai segurar ele na boa, mas inevitavelmente vai olhar pra cara do problema enquanto a gente ainda olha pra pilha toda. Até que, encarando o problema que apoiamos em seus braços, ela vai perguntar: “O que é isso aqui?” e aí vem a parte difícil. A gente finalmente vai ter que olhar pro problema e tentar explicar que porra é aquela.

Sempre que me busca de carro no trabalho, Greta sorri e se inclina para me dar um beijo rápido com gosto de Tic Tac de laranja, enquanto a mão pousa imóvel no câmbio e é espremida por um abraço meu. Ela nunca solta a mão do câmbio quando encosta para eu entrar. Parece até um sinal para eu não demorar muito e colocar logo o cinto de segurança. Faz bem pouco tempo que ela tirou carteira e só na semana passada topou dirigir comigo do lado. Ainda a sinto se encolher de vergonha quando faz alguma besteira e posso ouvir sua respiração pesar quando algo a deixa ansiosa – caminhões e ônibus a pressionando, vagas pequenas, estacionamentos estreitos e ladeiras muito íngremes. Greta é péssima com ladeiras íngremes. Quando deixa morrer o carro, a autoestima dela também morre um pouquinho. Hoje até penso melhor se eu deveria ter insistido tanto para ela voltar para a auto escola. A bichinha nem consegue conversar enquanto dirige e tem o costume de abaixar o som em balizas ou cruzamentos perigosos. Muitas vezes nem ligo o rádio e voltamos pra casa em silêncio mesmo, com rápidos selinhos de agradecimento pela compreensão ao parar no sinaleiro. São segundos em que ela pode relaxar, olhar para mim, pegar mais um Tic Tac de laranja e sorrir aliviada como quem comemora não ter batido em ninguém até hoje. Insisti para ela dirigir todos os dias nessa semana e ela topou o desafio determinada. Tá sendo a semana mais longa da minha vida, disse ela rindo ao chegar em casa. A garagem do prédio é o momento em que, vez ou outra, eu a deixo descansar e manobro o carro. Tínhamos negociado que ela tiraria carteira se eu conseguisse uma vaga mais fácil na garagem. Na hora de negociar a troca, ganhou no valor a nossa vaga velha, pequena, dos fundos, espremida entre dois vizinhos que não sabem manter suas caminhonetes dentro da área delimitada. O dinheiro a desembolsar pela nova vaga não valia a pena. Ficou a vaga velha e assumi a tarefa de estacionar o carro. Aí é só no elevador que eu vou ouvir a voz dela, saber do seu dia, das coisas que deram certo ou errado. Finalmente tenho a atenção dela toda para mim, olhando para mim, falando da vida para mim. Ao chegar em casa, abro a porta e sempre dou um beijo na testa enquanto ela passa por mim. Obrigada pela carona, amor! E de repente todo o ciúme das ruas, dos sinaleiros e dos outros motoristas, que contam com toda a concentração dela, linda e séria no trânsito, vale a pena ao vê-la entrar em casa sorrindo, orgulhosa de si mesma.

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